Segunda-feira, Novembro 16

ignorância

em "ignorância" (um livro bonitinho que estou a terminar), kundera esforça-se por traçar um pungente retrato da nostalgia. há mesmo um longo parágrafo em que vemos contrapostas as distintas matizes semânticas que o vocábulo nostalgia assume nas principais línguas europeias. o próprio título do romance é explicado assim que o autor se lembra de que tinha comprado um dicionário etimológico num bouquiniste à beira do sena (estou a inventar, não me levem a sério). passo a citar:"Em espanhol, añoranza vem do verbo añorar (ter nostalgia), que vem do catalão enyorar, derivado, por seu turno, da palavra latina ignorare (ignorar). A esta luz etimológica, a nostalgia aparece como o sofrimento da ignorância. Tu estás longe, e eu não sei o que te acontece. O meu país está longe, e não sei o que lá se passa."

outra ideia digna de sublinhado é a de que, ao contrário da percepção geral, os sentimentos nostálgicos exercem maior poder sobre os mais jovens do que sobre os mais idosos. isto porque, segundo kundera, quanto mais nos aproximamos do fim, mais tendemos a valorizar cada momento que vivemos e não desperdiçamos o escasso tempo que nos resta com recordações. já os mais jovens, nos quais o passado ainda tem um rasto curto, podem dar-se a esse luxo de remoer a saudade com a mesma boca com que mascam uma pastilha elástica.

é claro que tudo isto é muito difícil de compreender se não compreendermos primeiro que 2009 não será o ano em que o sporting contratou carlos carvalhal; será sempre o ano em que o sporting não contratou andré villas-boas.

Sábado, Novembro 14

estado da nação



- I just don't know what to do with myself -

Segunda-feira, Novembro 9

armas

se procuro fazer humor inteligente, recorro sempre às mesmas armas: a minha ignorância e a wikipedia.

caicedo

assim que samuel coleridge, em 1817, cunha o termo “suspensão da descrença”, surgem as primeiras suspeitas. apesar de todos os indícios, foi preciso esperar pela época de 2009/2010 para podermos afirmar, sem qualquer sombra de dúvida, que coleridge não estava preocupado com a poética. como qualquer homem atento neste princípio de século (de steiner a maalouf; de savater a rui santos), coleridge estava preocupado com o sporting clube de portugal.

a suspensão da descrença pressupõe que o leitor ou o espectador aceita como verdadeiras as premissas de um trabalho de ficção, por mais fantásticas, impossíveis ou contraditórias que possam ser. em suma, o que coleridge nos está a dizer é que, a menos que o leitor ou o espectador aceite fazer vista grossa, tapar as orelhas e passar por asno, os mecanismos da ficção não produzirão efeito. do que se depreende que se a literatura se dirigisse a um público que não fosse em cantigas, não haveria possibilidade de literatura.

mas muito bem, podemos sempre alegar que essa suspensão do julgamento é premiada com uma boa dose de entretenimento. ora, é aqui que coleridge começa a falar do sporting 4-4-2 losango e é aqui que eu discordo de coleridge.

só para que vejam que sou um homem que está nisto de boa-fé, um homem tremendamente predisposto para suspender a sua descrença, posso dizer-vos que quando vejo este sporting jogar (e reparem que eu chamo “àquilo” “jogar”) acredito piamente que estou a ver uma equipa de futebol. olho para o pedro silva e vejo um lateral-direito; quando o angulo está em campo, acredito sempre que vai fazer alguma coisa especial, como por exemplo, mexer-se; a cada pontapé para a bancada assinado pelo andré marques, sublinho a intenção do passe em profundidade da jovem esperança leonina. falar do caicedo era todo um outro parágafo e vocês não estão para isso.

temos, portanto, que de um lado está uma massa adepta que acredita que está a ver uma equipa de futebol, ao passo que do outro, há uma equipa de futebol que sabe que não é uma equipa de futebol. se isto é literatura, não posso dizer, porque não faço ideia do que é literatura. agora o que sei, senhor coleridge, é que entretenimento isto não é.

Quinta-feira, Novembro 5

dor maior

haverá dor maior do que a que sente o jovem escritor depois de levar um pontapé nos textículos?

Quarta-feira, Novembro 4


- But you're on the pill or whatever, surely. You got a gimmick in there or something.
- Answer me this, John. Why is it always the woman who takes the precautions?
- Uh? Because it's always the woman who gets pregnant.*

* in Money, de Martin Amis, pág. 340, Vintage Books - um livro com muita piada, mas obviamente datado, como se comprova pela imagem.

that’s the problem with drinking

tive muita sorte com o meu fígado, o que é o mesmo que dizer que tenho muita sorte na vida. sou um tipo que tolera bastante bem a bebida e que não costuma contrariar os empregados de balcão que se armam em sovinas com o gelo que lhe colocam na vodka.

a história poderia muito bem ter ficado por aqui e íamos já todos para casa, mas é do conhecimento público que, mais cedo ou mais tarde, há um preço a pagar pelo álcool que se bebeu – e quem já perdeu o cartão de consumo numa discoteca, sabe bem do que é que eu estou a falar. era inevitável, portanto, que chegasse o meu dia de perceber que eu tinha um problema com a bebida. o problema é que, quando bebo (quando bebo mesmo muito), preciso de me sentar numa mesa de café, preciso de ficar sossegado, de abrir o moleskine, e de escrever sem parar. ora, eu tolero muita coisa na vida, meus amigos - vodka, whisky, cachaça, aguardente velha e, não sei se já disse, vodka-, admito que me chamem bêbedo, mas o que não posso admitir é ver que, sexta-feira após sexta-feira, nada faça para impedir que me transforme num bukowskizinho de fim-de-semana. o bairro alto já não tem espaço para mais e pede-me que vos informe da sua profunda gratidão para com a minha pessoa, uma vez que está decidido que vou deixar de beber. aos fins-de-semana.

Sábado, Outubro 31

super bock

foi um erro estipular uma data para o regresso pós-férias. o último post foi um erro, como é um erro voltar aqui à meia-noite e meia de sexta-feira, de um dia qualquer de novembro. é que nem sequer tenho nada a declarar, senhor polícia. apenas, que estou bêbedo (mas, quem não está?). limito-me a ser sincero (isto é bruno vieira amaral sem link, que estou sem pachorra para a tecnologia).

fui explicando às pessoas que me enviaram mails (duas, para ser exacto) que me afastava do blogue, para poder ler mais do que leio, quando escrevo neste blogue que agora lêem. quanta mentira encontramos para oferecer aos que menos a merecem.

sim, fui lendo algumas coisitas. estou mais homenzito desde o princípio do verão e com menos nove quilos no corpo. sou um tipo evidentemente mais elegante desde que resolvi reler eça, o de queiroz, e confraternizar com os meus amigos ateus, christopher hitchens e martin amis. redigi um "postão" sobre o caim do saramago, mas o mundo vai ter de sobreviver ao facto de que esta maravilha, assim como milhares de outras ao longo história da humanidade, apenas sobreviverá dentro da minha cabeça.

amanhã, não estarei apenas de ressaca. estarei a amaldiçoar esta super bock que me fez escrever este post. (este post?)

Quarta-feira, Junho 24

lay-off

num momento em que desaparecem, sem deixar rasto, o eduardo e o ulrich, aproveito para dizer que nem tudo são más notícias. até final de agosto, o acto isolado (este mesmo) vai tirar umas férias.

o ocasional espirro-barra-post continuará a ser possível. tudo é possível quando é verão, cinco da manhã,* e trazemos para casa um copo de plástico com o que resta de nós e de uma superbock.

*muita atenção, reparem no uso perfeito que aqui se faz do oxford comma.

Segunda-feira, Junho 22

passem por mim no rossio



Quarta-feira, Junho 17

retroactivos #6

um destes dias envio a minha fotografia para a secção do obituário – antes de morrer, quero saber o que os jornais dizem de mim.
- 17 de janeiro de 2006

nosso de cada dia

parece existir uma correlação explícita entre as catástrofes naturais, os alertas de pandemia, os acidentes de aviação e a taxa de criminalidade no nosso país. isto é, de cada vez que um sismo, estirpe de gripe à solta ou queda de avião abre noticiários televisivos, deixamos de ouvir falar em carjacking, assaltos a bancos ou ataques a carrinhas de valores.

a solução para a criminalidade não reside, portanto, no aumento do número de efectivos policiais. isto já só se resolve com a queda de um aviãozinho por semana, um terramoto por mês e a descoberta de um novo vírus mortal todos os anos. rezemos todos, ateus e outros, para que o bom deus também veja os telejornais e faça o que não pode deixar de ser feito para que, aqui no nosso cantinho, nos vejamos livres do mal.

Terça-feira, Junho 16

silly season

sou sempre o primeiro a chegar à silly season. ora aqui está uma boa razão para perder este hábito de andar com o relógio adiantado.

não está?

há mais de uma semana, entrei em apneia. poderia aqui estender-me para vos explicar as razões que conduziram a este súbito desvanecimento. mas já devem ter adivinhado, pela forma como dei início à frase que precede esta que está quase quase a terminar, que não irei fazê-lo. está muito calor, não está?

gostaria somente de registar que bastou pouco mais de uma semana para que acumulasse 284 posts não lidos no meu google reader (mas esta malta não sabe estar quieta, caralho?); para que um dos meus blogues favoritos sumisse do radar (sugiro o envio de uma equipa de salvamento, unidades cinotécnicas, o exército e a marinha, a força aérea e o nuno rogeiro); para que uma colónia de aspergillus niger fundasse uma nova pátria sobre os terrenos ocupados pelo post dedicado à pesporrência de paulo rangel. também reparei que desaprendi as únicas duas ou três coisinhas fundamentais que conseguira aprender na vida para fazer de mim um homenzinho. a título de exemplo, digo-vos que estou a ler yasmina khadra, depois de ter deixado a meio caminho o herzog, do bellow. também deixei de saber retirar prazer do acto de escutar música (qualquer música). tenho ali o 1900, do bertolucci, pendurado, à espera que volte à sala, a 43 minutos do fim. e não me interpretem mal, quero muito acabar o herzog, ver o resto do 1900, dizer que coetzee nos está a enganar em relação ao talento que reconhece em khadra, e voltar a embalar-me na voz cava da poesia de leonard cohen. mas está muito calor, não está?

Segunda-feira, Junho 8

também tenho direito ao meu bitaite sobre as europeias

rangel afirmou que a sua era a vitória contra a pesporrência do governo. repito, contra a pesporrência. não tenho nada a ver com isso, mas acho que ganhar não concede a ninguém o direito de se ser mal-educado. ainda por cima, disse-o na presença da jsd. hão-de concordar que, dizer palavrões quando há crianças por perto, é baixar demasiadamente o nível. e não, medir um metro e vinte, também  não serve de atenuante.

Domingo, Junho 7

retroactivos #5

cézanne nunca o escondeu: a única natureza boa é uma natureza morta.
- 10 de janeiro de 2006

Quinta-feira, Junho 4

off the record

indignada, a professora protesta quando lhe é entregue um segundo envelope contendo mais trinta provas. alega que já recebeu uma leva, enquanto outros não receberam uma única prova para corrigir. são critérios que não entende. ainda para mais, estamos em final de ano lectivo e quem é professor compreende bem o que isso significa: provas globais às centenas para elaborar e corrigir; notas para entregar nas reuniões de avaliação; relatórios de final de ano; todos os minutos contados; uma vida pessoal (tenho filhos, sabe?). o mensageiro de serviço, lá segue, encolhendo os ombros e a pilinha, manifestando total compreensão. mas que a culpa não é dele, é o computador quem decide, está a ver? não há nada que possa fazer. a não ser (e isto fica aqui entre nós, que se 'eles' lá do ministério sabem...) alargar o prazo até segunda-feira, em vez de entregar já na sexta. assim, sempre tem o fim-de-semana, hã?

dois ou três apontamentos sobre esta conversa:

1. reparem como a professora em causa rapidamente procurou um colega a quem passar o peso que lhe coube em sorte. é exactamente aquilo que eu faria. sintam-se à vontade para tirar as vossas conclusões sobre a classe docente. é exactamente aquilo que eu faria.

2. a tese da não-inscrição, defendida por josé gil no seu portugal hoje, o medo de existir, não vinga. desde que se descobriu que portugal é o único país do mundo onde os computadores ganham vontade própria, porque os humanos que ocupam o território se confessam incompetentes para fazer com que os computadores cumpram a vontade dos humanos, que a culpa não morre solteira. depois da expulsão dos judeus do país em 1496, foi preciso saber esperar para voltarmos a ter bodes-expiatórios à altura da nossas exigências.

3. é bom ver que o nacional-porreirismo ainda não caiu em desuso. é proibido pela hierarquia, mas dá-se um jeitinho e alarga-se o prazo para segunda-feira.

4. quando se puseram a pensar sobre qual seria a melhor maneira de garantir que os professores não vão votar contra o partido socialista no domingo, os homens do aparelho urdiram uma (devo dizê-lo) brilhante estratégia eleitoral: os professores que vão mas é trabalhar, pá.

Quarta-feira, Junho 3

m. de maria de lurdes



o génio de fritz lang também se reconhece nestes pormenores. corria o ano de 1931 quando, em plena rodagem do clássico M., lang surpreende o staff do gabinete de avaliação educacional do ministério da educação, numa almoçarada reunião secreta. ao longo dos anos, vários têm estado ao serviço dos que tentam, por todos os meios, desacreditar aquilo que para o resto do mundo livre é já uma evidência. aos que ainda se perguntam, como é possível que as provas de aferição nacionais se possam ter consubtanciado no epítome da falta de exigência e no triunfo do laxismo sobre o rigor, chamo a atenção para a imagem ali mais acima. só neste fotograma, podemos observar uma mancheia de elementos que ajudam a compreender o ambiente em que são elaboradas as provas de aferição nacionais de matemática e língua portuguesa. sobre a mesa, divisa-se uma cesta com pãezinhos de alho, um cálice de vinho do porto, dois copos de absinto e um bule para servir chá de menta. ao centro, é bem visível um dos galhardetes que maria de lurdes rodrigues (que se encontra de costas) trocou com a classe docente, desde que detém a pasta da educação. no outro lado da mesa, a dupla laurel & hardy procura uma solução para o problema 416 do sudoku do correio da manhã, enquanto outros dois senhores aproveitam para roer um cohiba e mandar um bitaite (ou vice-versa. deste ângulo não se consegue perceber). a cadeira vazia, segundo julgo saber, pertencia a nascimento rodrigues, que se cansou de jogar à paciência (como é dado a entender pelo baralho de cartas abandonado no local) e partiu para destino incerto.

os alunos têm escolha múltipla, os professores não têm escolha

as pessoas a quem o conto, mostram-se espantadas. a verdade é que só se podem espantar, porque ainda não perceberam com quem é que estão a lidar. ninguém quer acreditar que este trabalho que o ministério impõe aos professores, seja feito a troco de nada. e quando digo nada, digo nenhuma regalia em termos de tempo de serviço, nenhuma retribuição pecuniária por cada uma das provas corrigidas, nenhum reembolso do valor da gasolina ou do bilhete de autocarro necessários para a deslocação até ao local onde se levantam as provas, nenhuma dispensa do horário lectivo, nenhuma pancadinha nas costas, nenhum diploma de bom escuteiro, nenhum obrigado-até-sempre. ao serviço do estado, um exército de correctores, instruídos para beneficiarem o aluno em caso de dúvida. um exército gratuito, ao serviço de um instrumento que a ministra terá ao seu dispor para o auto-elogio às suas reformas. 

façamos todos figas, pois, para que a escola tenha ensinado bem os alunos a colocar a cruzinha no sítio certo; que os tenha ajudado a saber distinguir o que é verdadeiro do que é falso; os tenha ensinado a ler bem nas entrelinhas dos discursos. sei que pode parecer, mas juro que não estava a falar das eleições do próximo sábado. 

posso sempre alegar 'perda momentânea de lucidez'

fui hoje premiado com um envelope cheinho de provas de aferição de português para corrigir até segunda-feira. é muito provável que os próximos posts venham a bater todos na mesma tecla. eu avisei que não ia ser bonito, mas vejo-me obrigado a soltar o mário nogueira que há dentro de mim.  

Terça-feira, Junho 2

retroactivos #4

é fácil reconhecer um barman numa discussão: é sempre aquele que insiste em colocar a tónica no gin.
- 18 de dezembro de 2005

Segunda-feira, Junho 1

a experiência do cinema

veio ter comigo com dois bilhetes na mão e disse: toma, é para ires ver o filme do rimbaud. juro que, se isto tivesse acontecido três semanas antes, apressar-me-ia a agradecer, embora declinando o convite, porque o cinema de silvester stallone consegue deprimir-me ainda mais do que ver a ana malhoa na capa da playboy. claro que, na altura (corria o ano de 1995), uma tal associação de ideias seria descabida. afinal de contas, para mim e para o resto do país, a ana malhoa era apenas aquela apresentadora do bueréré, que por acaso namorava com o xano, um amigo da minha infância no miratejo - diz que é um gajo porreiro.

mas dizia: escapei de passar por xano, porque como gajo espectacular que nesse ano consegui ser, fui capaz de deixar de confundir rambo com rimbaud, menos de duas horas depois de me terem sido apresentadas as iluminações. ao fim de três dias, já declamava as vogais, ao mesmo tempo que comia um duchesse sem precisar de guardanapo. depois de uma semana, aquilo começou a ter piada. alimentava-me de haxixe da rua augusta e bebia absinto neto costa, provando que, quando associado à ingestão de anis com corante, o hábito de fumar caldo knorr com orégãos, nos faz encontrar o absoluto até dentro  de uma lata de feijão cozido. por esta altura, já estava mais do que convencido dos meus poderes de vidente. como que para reforçar esta minha convicção, o sporting decide avançar para a contratação de tomas skuhravy, apesar da minha insistência para que não o fizesse. cedo se veio a revelar um erro, assim como a reposição, por parte da administração da rtp, da série raio azul - the blue thunder.

agora compreendem que, quando a amiga a que faço referência no início deste post me lançou o convite para ir ver o filme do rimbaud, já eu comia enid starkies ao pequeno-almoço. a minha mãe teria ficado extremamente orgulhosa de mim nesse momento, se não estivesse tão empenhada em candidatar-se ao cargo de biógrafa do joão baião, ambição que lhe exigia horas a fio de visionamento de big show sic.

o filme passava no festróia e, surpreendentemente, a sala estava bastante composta. muita menina de pochette e revista bravo na plateia. claro que não estavam ali para seguir o trabalho (aliás incompetente) de agnieszka holland (que parece ter-se saído menos mal, recentemente, quando convidada a dirigir três episódios do the wire. mas não vi. não posso afiançar.) as meninas vinham ao que as meninas vêm quando vão ao cinema: ver a carinha laroca do di caprio. aquilo irritava-me, porque eu era um poeta e (como o filme mostra) os poetas são gajos um bocadinho esquisitos, que se irritam com bastante frequência. sim, aquilo irritava-me, mas nunca voltei a ser tão feliz numa sala de cinema, como naquele momento de debandada geral, que coincidiu com o minuto 6:50 do youtube ali em cima. está muito, muito longe de um antónio banderas em a lei do desejo. mas eu também não desejo mal a ninguém. chegou-lhes para o susto e para a minha rara, genuína alegria.

Quarta-feira, Maio 27

rock me amedeo

tempo de antena do ppm

a final da liga dos campeões foi disputada por duas monarquias parlamentares. é por isso que se chama desporto-rei.

the soaked lamb

entretanto (reticências) não conhecia, mas ainda bem que nos encontrámos na oficina a vapor.

só falta um para a sueca no jardim

55 posts em novembro; 52 em dezembro; 48 em janeiro; 37 em fevereiro; 25 em abril; 19 em maio*. eis a prova, para os que não acreditavam, de que a auto-censura é uma doença degenerativa.

junto-me ao bruno e ao pedro: estamos mesmo a ficar velhos.

*desactualizado. se não paro quietinho, ainda dou cabo desta merda.

Domingo, Maio 24

retroactivos#3

com tanta pornografia no computador, não admirava que tivesse sempre o disco rígido.
- 29 de outubro de 2005

matéria-prima

Mas para que se preocupar tanto? O cadáver é que é o produto final. Nós somos apenas a matéria-prima.

- Millôr Fernandes,
"Sobre a maneira correta de enfrentar as contradições existenciais".
Discurso na Universidade do Meyer, 1945

Quinta-feira, Maio 21

um espinho na garganta

mentiria se dissesse que me orgulho do meu passado, mas sinto o peito enfunar-se, quando me recordo que passei uma parte significativa da minha adolescência a comprar cassetes de áudio. não demorei muito a ter setenta e duas virgens no meu quarto. ora, tendo em conta que o fiz, sem ter sido necessário cometer a imbecilidade de me converter ao islamismo e sem ter precisado de me tornar um mártir aclamado com salvas de metralhadora na faixa de gaza, acho que se pode dizer que estamos a falar de um tipo que não é parvo de todo.

ingrato como sou, já me tinha esquecido por completo desta peça de tecnologia, à qual devo tanto da minha geografia musical. foi preciso vir a público esta história da professora de espinho, para que me voltasse a debruçar sobre muitas das questões existenciais, em torno das cassetes de áudio, que deixara pendentes no final da minha adolescência. mas como sou um cavalheiro, não irei aborrecer o amável leitor com devaneios de semelhante estirpe. vou directo ao assunto:

o jornalismo sério que se pratica em portugal, tratou depressa de colocar ênfase nas questões sexuais, usando o negrito para o sexo com que titularam as notícias (não foi este o mundo que o movimento abolicionista sonhou). recordo-me bem que a primeira vez que esta história aparece na televisão, é apresentada como o caso de uma professora que fala de sexo com os seus alunos durante as aulas. assim que pudemos assistir à reportagem, depressa se percebeu que (para variar) nos tinham enganado. e, por incrível que pareça, continuaram a tentar enganar-nos ao longo dos dias que se seguiram. no parlamento, a paródia foi levada ao extremo, quando um senhor do cds (o único ser humano que alia a falta de cabelo à capacidade inata para fazer passar a bancada do bloco de esquerda por uma comissão de sábios) tentou uma pirueta retórica, usando este caso como a prova de que a educação sexual na escola é um perigo e um erro. este caso, deixemo-nos de merdas, apenas prova que aquela senhora vai apreciar muito o apoio da família durante o período de visitas no júlio de matos.  mas prova mais. prova que ainda não aprendemos a escutar. a escutar o que realmente está gravado naquela cassete. 

sim, toda a gente ouve uma professora mal-educada e trauliteira, cuspindo ameaças sobre as cabeças de crianças de 12 anos. uma senhora que mostra uma sintonia perfeita com o que sabemos ser a concepção de educação que alguns dos membros mais destacados deste governo amiúde vão defendendo. gente que confunde o diploma de estudos com a vida real. também a docente de espinho se faz valer do seu 'mstrado'[sic], dos dezasseis anos a estudar, da forma como os outros devem dirigir a palavra à senhora doutora que, em dezasseis anos de estudo, não teve tempo para aprender a conjugar o verbo meter, no pretérito perfeito do indicativo, na segunda pessoa do singular. 'tu nem sabes no que te metestes'. sim, a fita magnética reproduz fielmente a sintaxe que a atraiçoa. e foi também a isto que tanta gente deu ouvidos. mas, e aquele ruído de fundo? aquele mantra silencioso que se faz escutar em dolby surround, os cochichos no corredor, aquele não é nada comigo, não é nada comigo, não é nada comigo? dito por outras palavras: aquele silêncio. ou, se preferirem uma forma pomposa: aquela pusilanimidade. é a segunda vez na vida que me vejo na contingência de ter de citar o saudoso tino de rans: não são os políticos que governam este país; o que governa este país é a cobardia.

e, portanto, podem apagar a gravação que a aluna fez na aula. a professora pode até vir a receber uma indemnização por ter sido alvo de uma cilada. a cassete pode não ser considerada válida pelos tribunais. há, contudo, nesta história, uma marca indelével. é que a tecnologia permite que se apague tudo o que existir numa cassete, mas não existe nada que possa apagar o que está ali para quem o quiser escutar: sssshiiiiiiiiiiiiiiiuuuuuuuuu.

Terça-feira, Maio 19

fruta

foram vultos do cinema da envergadura* de uma gina lynn, de uma carmen luvana ou de uma veronica zemanova (isto só para fazer justiça a alguns nomes, sem querer correr o risco de maçar o leitor), que contribuiram de forma decisiva para que, hoje em dia, o mundo encare a manobra de heimlich, na sua variante sem calças, como uma das actividades mais gratificantes de que há memória. era nisto que estava a pensar, quando me encontrava no pingo doce para comprar um quilo de maçãs-reinetas, uma vez que me comprometera a fazer um puré de maçã para o jantar. não sei se pessoas como eu, que não estão habituadas a comprar maçãs-reinetas, fazem a mínima ideia do que significa meter-se na fila das pessoas que vão comprar maçãs-reinetas. é que nunca é demais relembrar que a maçã-reineta é um daqueles frutos perante os quais um gajo não se pode pode dar ao luxo de querer ser como a suíça. quem não está a favor da maçã-reineta, está-se a pôr a jeito das hordas de adoradores desse fruto malquisto. a maçã-reineta é um fruto tão incompreensivelmente feio que tenho a certeza que, se a livros do brasil fizesse um fruto, publicava uma maçã-reineta. e assim como há leitores para os livros da livros do brasil, também há comedores de maçã-reineta. conheço até histórias de gente que compra maçãs-reinetas e as guarda em esconderijos, longe da cobiça dos familiares, atrás de alguns volumes da colecção dois mundos. e (já que estou lançado) ninguém me tira da cabeça que, durante o passado fim-de-semana, o grupo bilderberg abordou em segredo o futuro da maçã-reineta, pois, como se sabe, esta tem vindo a perder gradualmente importância na esfera mundial para o monopólio da granny smith.

regressemos, porém, ao pingo doce. estava eu ali, já com o saquinho de plástico na mão, pronto para ensacar uma dezena de maçãs-reinetas, quando me vi bloqueado por uma dupla de centrais (uma velha e um quarentão de casaco de cabedal), que se aperceberam da minha falta de experiência na alta-roda do ensacamento de maçãs-reinetas e decidiram fazer o que o luisinho e o venâncio fizeram ao klinsmann em alvalade, no nostálgico ano de 1991. houve agarrões na camisola, cotoveladas e uma entrada assassina a pés juntos**. a tudo, o árbitro fez vista grossa. e porquê? ora, obviamente, porque lhe pagaram como a todos os outros: em fruta.    

*errata: deve ler-se 'foram vultos do cinema em verga dura...'.
** atenção: o luisinho e o venâncio não fizeram nada disto. mas confirmo o dado histórico que diz que o klinsmann esteve tão longe marcar um golo nesse jogo como eu, que estava sentado atrás de uma das balizas, no topo sul, do velhinho alvalade.

ética

esforço-me sempre por desiludir os que se mostram certos de que serei uma desilusão. de outra forma, desiludir-se-iam, se não os desiludisse. 

Segunda-feira, Maio 18

retroactivos #2

há coisas muito nossas. poucas serão mais lusas do que o tão corrente “entre aspas”. quantas conversas não são de repente visitadas por esse verdadeiro deus ex-machina da linguagem que é um “entre aspas”? quem não reconhece as propriedades mágicas desse escudo protector da nossa cobardia, do nosso engenhoso não-assumir, da nossa lusitana não-inscrição? tão conveniente que é um bom entre aspas, tão diplomático, tão capaz com tão poucos recursos de dizer que ninguém deve levar a sério o que fingidamente a sério é dito.

em português ninguém tem culpa. quando alguém publicamente aponta uma falha a outrem, não se esquece de dizer que esse outrem tem culpa, sim, mas entre aspas. que esse outrem falhou; falhou, isto é, falhou entre aspas. que errou, mas não é bem assim, errou entre aspas.

ou entre comas, como já é mais raro ouvir-se. e com pena minha, pois encontro nesta moribunda expressão a definição mais certeira para a letra morta que tantas vezes vemos ser feita entre aspas.

- 12 de julho de 2005

Domingo, Maio 17

Sexta-feira, Maio 15

anacronismo crónico

vários blogues ganharam a forma de livro, mas eu nunca comprei nenhum. ainda sou do tempo em que só podia lê-los no computador e, com esta idade, já não estou para grandes aventuras. prezo muito os meus anacronismos, ainda que isso ofereça um argumento aos que me chamam antiquado.